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      ENTREVISTAS


 Germano Julio Badi*
Foto: Rodrigo Petterson/RPhoto.

SiteVocê fez excelente palestra sobre inovação. É possível inovar no tema da ética, considerando que essa ciência se baseia em princípios sólidos e consolidados?

Germano Julio Badi -
Aparentemente parece ser contraditória a afirmação de inovar tratando-se de princípios sólidos e consolidados, mas mantenho meu desafio. Quando falo em inovar neste caso estou me referindo à inovação ou resgate da prática destes princípios consolidados e não na alteração dos mesmos. O que lamentavelmente ocorreu nas sociedades, em maior ou menor grau, foi a erosão dos conceitos morais, a deseducação e o desconhecimento conveniente da prática de Ética, não só nas empresas públicas e privadas, mas também na cidadania em geral. Existe um sentimento passivo induzindo a aceitação de práticas antiéticas.
Esta letargia é que precisa ser combatida e resgatar os valores morais de forma ampla.

Site - O jornalista apenas transmite a informação ou também é formador de opinião?

Germano Julio Badi -
Não creio que o termo renascimento seja adequado neste caso, pois não considero que a Ética tenha falecido. Creio, sim, que as demandas e a tomada de consciência do conceito amplo de Sustentabilidade levarão, finalmente, ao despertar da consciência e à percepção de que a Ética é a espinha dorsal de qualquer processo de Sustentabilidade e, portanto, tem total e imperiosa prioridade a sua recuperação.
Existe um ditado americano que traduz bem esta situação:
“Não existe um bom momento para fazer algo errado,
Da mesma forma
  Não existe um mau momento para fazer algo bom”
A consciência do certo e errado está em todo ser humano, a sua prática é que está adormecida.

Site - Como resgatar os valores morais e se indignar contra a corrupção que grassa nossas organizações?

Germano Julio Badi -
Acredito que a sua pergunta tenha duas respostas:
Na esfera privada o individuo escolhe com quem trabalhar e nesse sentido deve buscar uma empresa que tenha no mínimo o mesmo nível de postura ética que o seu próprio. O empregado deveria conhecer os valores e politicas da empresa antes de firmar seu contrato cabendo a ele, usando seu livre arbítrio, aceitar ou não as condições propostas. Se depois de empregado encontrar um dilema entre seus valores e as práticas da empresa, deveria então sair da mesma. Infelizmente conviver com um conflito ético causa uma dualidade de sentimentos extremamente desgastante. Lamentavelmente dizemos que o papel da Liderança pública ou privada deveria seguir o lema; “Walk the Talk”, ou seja, aja de acordo com o que pregas. O exemplo é fundamental para que uma politica comportamental seja implantada e mantida.
Na esfera pública o dito acima também é válido, porém gostaria de mencionar outro stakeholder neste caso: - O Cidadão. Este não atua na esfera pública, mas poderia influir nela pelo seu voto consciente e cobrança de compromissos de campanha. Aqui mais uma vez somos passivos e fatalistas: consideramos que a corrupção, por exemplo, é sistêmica e, portanto aceitamos isto como um componente normal da atuação pública.
Existem, entretanto, movimentos esporádicos da cidadania começando a mostrar desconforto com o estado e mobilizando, inclusive via redes sociais, passeatas e manifestações contra este ou outro desmando na atuação pública. Creio que  começa a existir certa retomada de consciência com relação à Cidadania.

Site - Como foi sua experiência na Europa, quando trabalhou na fusão de empresas que tinham culturas diferentes?

Germano Julio Badi - Foi uma experiência muito interessante. Após a queda do muro de Berlin, o Leste Europeu abriu-se para investimentos estrangeiros. Eu trabalhava na época numa multinacional americana com politicas empresariais e uma politica de ética extremamente rígida. Fui então convidado a introduzir e treinar diretores e funcionários destas novas empresas na Rússia, Polonia, Hungria, Romênia e também na Turquia.
Desafio interessante pois estava entrando em culturas que viveram sob o regime comunista (exceto Turquia) cuja característica principal era um planejamento centralizado do partido sem nenhuma possibilidade de desvio ou opção para os cidadãos. Com o passar dos anos as pessoas perderam a habilidade de decidir ou opinar. Um exemplo do ponto a que chegou esta situação encontrei na Rússia: a maior dificuldade para uma dona de casa era chegar ao supermercado e ter oferta de vários produtos (por exemplo: verduras), e a dificuldade consistia em fazer uma escolha do que comprar, em que quantidades, etc.
Na Romênia o roubo a lojas era tão comum que nas vitrines das lojas de sapatos expunha-se somente um pé.
Em todos os países existia o conhecimento do certo e do errado, mas não podiam entender o background cultural Norte Americano por trás das politicas de ética nos negócios.
O pagamento de propinas, subornos, mercado negro estavam enraizados nas pessoas, pois eram as únicas formas de sobreviver. Existem muitas historias sobre as dificuldades de adaptação destas populações a uma nova realidade de consumo mais global.
O importante é que após um ano de trabalho as exceções à politica de Ética nestes países não eram diferentes das que encontrávamos em outras partes do mundo.

Site - O que se entende por ética planetária?

Germano Julio Badi -
Apesar de a Ética estar baseada em princípios sólidos e consolidados, ela sofre alterações por influência da cultura local de forma geral, mas também de interpretações de qualquer cluster social. Neste ponto ações totalmente condenáveis numa sociedade podem diferir de outra por estes motivos.
Considerando que desenvolvimento sustentável não é uma tarefa individual mas somente será logrado a nível global, ou seja não podemos ter uma empresa sustentável  isoladamente. Sustentabilidade é um processo global que afeta todo o planeta em que vivemos e gostaríamos de continuar vivendo. Assim sendo a sustentabilidade é um processo global tendo como espinha dorsal a Ética, para ser bem sucedida necessita uma definição de Ética no mesmo nível, portanto cunhei a expressão “Ética Planetária”.

Site -  Conhecedor que você é de instituições americanas, européias e latino  americanas, que denotam preocupação com a ética nas organizações,  poderia citar algumas ações que a seu ver contribuíram para a  conscientização e  convencimento de que a vivência da ética é um  imperativo para a pessoa e as organizações?

Germano Julio Badi -
Participei recentemente de um Fórum Mundial sobre Ética, realizado pela Globethics.net, na Suíça. Foi sumamente interessante ver a preocupação com Ética, por exemplo, na Índia e África.
Alguns pontos interessantes apareceram sobre o tema e são recomendações do fórum:
1) O conceito é conhecido mundialmente
2) Compete ao Setor educacional ensinar ética em complemento aos ensinamentos na esfera familiar.
3) Este ensino não deve ser restringido às Universidades, o processo deve iniciar na formação básica do cidadão (família e pré-escola).
4) As ONGs e outras Associações ligadas á área devem servir de divulgadores e conscientizadores quanto a pratica da Ética.
5) Os governos ,quando formulam as diretrizes educacionais deveriam, incluir ética nos currículos,
6) As empresas deveriam ser o motor desta revolução e não esperar ditados governamentais. Explico: a empresa privada tem poder de decisão, maior agilidade em implantar programas, recursos financeiros e autonomia em suas decisões, portanto seria uma forma mais ágil de abordar e atacar a problemática.
7) É necessário encontrar lideres, campeões da Ética, que preguem a mesma e principalmente que deem o exemplo de sua pratica em todas suas ações.

Concluindo Ética requer uma revisão de valores, perda de conforto e conformismo, pensar de forma inclusiva ao oposto de pensar egocentricamente.......mudanças de hábitos extremamente desafiadoras.
Fácil não é, mas sou um otimista e acredito ser uma tarefa árdua, porém possível.


 

Germano Julio Badi - Administrador , pos-graduado e Mestre em Finanças pela EAESP -FGV. Atuou profissionalmente 30 anos como executivo e membro de Conselhos de Administração de Multinacionais e Associações na América Latina e Europa. Compliance Officer por 20 anos . Atualmente  é Diretor de Negocios Internacionais para a América do Sul da Tire Industry Association e Consultor em gestão estratégica, compliance e cultura organizacional, desenvolvimento de mercados internacionais assim como projetos de reciclagem de produtos de borracha. Coordenador do Grupo de Excelência em Ética e Sustentabilidade  e membro do Grupo de Empreendedorismo e Inovação, ambos, do Conselho Regional de Administração de São Paulo.Palestrante nacional e internacional sobre Ética e Sustentabilidade.

 


16/2/2012


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