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O Crepúsculo dos Gênios

  Lélio Lauretti *

Confesso-me um grande apreciador da monumental obra de Richard Wagner, compositor alemão que viveu no Século XIX e revolucionou por completo o mundo da ópera, até então dominado pelos italianos (Verdi, Puccini, Mascagni, Rossini e muitos outros).  Enquanto a ópera italiana – La Traviata,  Rigoletto,  Elixir do Amor são exemplos muito conhecidos – era  construída em torno de temas dramáticos ou cômicos muito simples, às vezes até ingênuos, e valorizava sobremaneira os dotes vocais dos intérpretes relegando a orquestra a um papel secundário de simples acompanhamento, Wagner decidiu criar o que ele mesmo batizou de “drama musical”, buscando seus enredos em antigas sagas da mitologia germânica e procurando valorizar tanto o aspecto teatral como o musical de suas composições, nas quais o texto, a orquestra e os cantores tinham papéis igualmente relevantes.   Mudar, como ouvinte, de um “Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, para um “Tristão e Isolda”, de Wagner, é quase o mesmo que, no cinema,  trocar uma deliciosa comédia do “Gordo e o Magro” por um “Assim Caminha a Humanidade”,  do inesquecível James Dean.  A obra mais complexa de Wagner foi uma tetralogia chamada  “O anel dos nibelungos”, que reúne quatro óperas completas:  O Ouro do Reno, As Valquírias, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses. Parece estranho falar em crepúsculo de deuses, mas a cena final dessa tetralogia é exatamente o Walhala – a morada dos deuses – tomado pelo fogo que a tudo e a todos consome, inclusive os próprios.

O mercado financeiro se converteu numa fértil indústria de gênios

O mercado financeiro, nos últimos trinta ou quarenta anos, se converteu numa fértil indústria de gênios, mas não pense que estou falando em gênios do tipo artistas, cientistas, escritores, esportistas, ganhadores do Prêmio Nobel ou equivalentes.   Estou me referindo aos “multiplicadores de fortunas” que acabaram por constituir a classe mais privilegiada da sociedade ocidental, se tomarmos por referência as incríveis fortunas que acumularam, sempre expressas em milhões de dólares.  No momento em que o mercado financeiro deixou sua missão básica de intermediação entre poupança e produção e passou a criar produtos próprios, de uma variedade impressionante, tivemos uma transição tão relevante quanto à da ópera “buffa”, ou cômica, para o drama lírico de Wagner.  Só que para pior, muito pior!  Já nos acostumamos com retratos de capas inteiras de revistas ou de primeiras páginas de jornal com a legenda “Gênio”.  Não dá outra:  é um multiplicador de fortunas (a dele em primeiro lugar).

Criação de valor ou transferência de valor?

Na realidade, a multiplicação de fortunas, como tem acontecido, não é um processo de criação de valor mas, claramente, um de transferência de valor. Essa transferência ocorre da poupança da sociedade para um grupo bastante reduzido de profissionais, sejam eles agentes do mercado financeiro, do mercado de capitais ou grandes empresários cuja remuneração variável (perto da qual a remuneração fixa é “peanut”) tem tudo a ver com o valor das ações da empresa em bolsa. E os valores envolvidos fogem a qualquer consideração de ordem lógica.  Qual o maior prêmio a que pode aspirar um pesquisador, um professor, um autor, um economista de renome? Sem dúvida, o Prêmio Nobel que, além da consagração, rende algo em torno de um milhão de dólares.  Como imaginar que, na febre das aberturas de capital dos últimos anos, aqui no Brasil, os banqueiros de investimento e respectivos assessores, quase como regra geral, ganhavam bem mais do que um Nobel por mês, se somarmos os milionários bônus de fim-de-ano?  Medida pela paga, seria sem dúvida a mais nobre das profissões do mundo, muito acima de médicos, professores, pesquisadores, engenheiros, ministros etc.  O que os gênios ganham por hora é superior ao ganho de um ano dos trabalhadores comuns, como bombeiros, seguranças, policiais, lixeiros, coveiros, motoristas, metroviários e um verdadeiro exército de pessoas cujo valor só é sentido quando não trabalham, isto é, quando o metrô pára,  o lixo se acumula nas ruas, ficamos às escuras, somos assaltados, os mortos permanecem insepultos e assim por diante.   Para elevar o espanto à sua enésima potência (“n” tendendo para o infinito), formaram-se, no mundo, algumas fortunas pessoais,  num contingente já superior a 1.000 bilionários, maiores do que o PIB de alguns países com dezenas de milhões de habitantes.   Bill Gates, Warren Buffett, Carlos Slim, os três maiores dentre os 1.000, têm fortuna pessoal de mais de 60 bilhões de dólares cada um. Bangladesh, um país de 130 milhões de habitantes, tem um PIB anual em torno de 60 bilhões de dólares!

Concentração de riqueza

O que os exemplos acima demonstram é que, fugindo de sua função econômica de intermediar recursos, os mercados financeiros se converteram em veículos eficientíssimos de concentração de riqueza.  Não é por outro meio que 2% de todos os habitantes da Terra se tornaram donos de 50% de todos  os ativos financeiros ou imobiliários.  Isso na média geral.  No Brasil, nos Estados Unidos e em alguns outros países desenvolvidos, os 2% são donos de mais de 80% de todos os ativos.   Se você quiser conhecer, em detalhes, como funcionam essas fábricas de bilionários e como vivem eles, há dois livros de lançamento recente que vão surpreendê-lo muito:  o “Supercapitalismo”, do Robert Reich, e o “Superclasse”, do David Rothkopf.  Você vai encontrar brasileiros nessas páginas.  Não é, também, por outra razão, que estamos atravessando décadas de pura pobreza espiritual, já que nossa escala de valores tem um denominador comum chamado “quanto vale?” – “Este é um quadro da fase azul de Picasso”. – “Quanto vale?” e, por extensão, “Este livro já vendeu 10 milhões de exemplares”, “O filme já foi visto por 1 milhão de pessoas” e assim por diante.  Dinheiro, só dinheiro, direta ou indiretamente.

O crepúsculo dos gênios e o trabalho de rescaldo

Voltando a Wagner, vimos que o ciclo começou com o Ouro, passou pelas Valquírias, por Siegfried, e terminou no Crepúsculo dos Deuses.  Com relação à nossa atualidade, parece que também se repete a figura do Crepúsculo, não dos Deuses, mas dos Gênios, com o desmoronamento do Walhala do mercado financeiro, incendiado pela ambição desmedida, pela falta de escrúpulos, pela irresponsabilidade dos saques sobre o futuro, pela perda de valores de referência e tudo o mais.  Fortunas dizimadas, poupanças de uma vida inteira reduzidas a  centavos, conselheiros desacreditados, instituições outrora invejadas e agora quebradas... Começa o trabalho de rescaldo, para o qual precisamos de bombeiros, não de gênios, e cujo custo serão anos de baixo crescimento econômico, desemprego em alta, investimentos postergados, desaparecimento de milhares de empresas, déficits orçamentários públicos em montantes inéditos, massas em desespero e muitas outras malvadezas.  

A irracionalidade é sempre trágica em suas conseqüências

Ainda que cômica por vezes, a irracionalidade é sempre trágica em suas conseqüências.  Como imaginar que, em pleno Século XXI, um espertalhão chamado Madoff conseguisse surrupiar as fortunas ou as reservas de meio mundo?  Já se sabe que o esquema envolveu fraudes acima de 50 bilhões de dólares no total e que não só incautos poupadores, como igrejas, museus, orquestras, teatros, entidades filantrópicas, ONGs etc. viram suas reservas reduzidas a pó, como muitos consultores de finanças, gestores de fundos de investimentos e outros mais “do ramo” embarcaram na mesma canoa furada.  Lamentável mas não surpreendente que alguns suicídios já tenham sido anunciados por conta disso.  Mas Madoff não é o único operador competente de esquemas “Ponzi”. Outros nomes já estão aparecendo: Kazutsuji Nami, que batizou seu esquema de “enten” (iene + paraíso) e o norte-americano Robert S. Stanford já ingressaram nessa galeria.

Os passos para o crescimento sustentável

Na tradição egípcia, havia a Fênix, uma ave fabulosa que, queimada, renascia de suas próprias cinzas. Como sobrevivente da crise de 1929, que impôs uma dura penitência de quase 5 anos para que a economia se livrasse dos pecados capitais (sem trocadilho) que cometeu, estou convencido de que aprendemos bastante (talvez não “o bastante”) para refinar controles, criar organismos multilaterais e, com isso, erguer anteparos às futuras crises.  Devemos, mais uma vez, purgar-nos, via crise, dos pecados  da “exuberância irracional” (expressão encampada por Greenspan que, todavia, foi um de seus mais decididos promotores através de sua clara opção pelos “juros negativos” como impulsionadores do crescimento econômico). O primeiro passo nessa direção é entender que exuberância e recessão não são apenas ciclos econômicos que se alternam rotineiramente,  mas que a segunda é sempre conseqüência direta da primeira, numa relação desalmada de causa e efeito. Muita cautela, portanto, com tudo que é “super”:  supersalários, superlucros, superconsumo, superendividamento, superriscos ...  Lembre-se de um dos princípios básicos defendidos por Platão: “nada em excesso!”  O segundo é a lembrança de que, tanto para governos, para empresas como para famílias, a poupança --  não o endividamento -- é o alicerce do crescimento sustentável.

Alguns sinais de que o doente continua vivo já se fazem visíveis:  a poupança dos norte-americanos, consistentemente negativa nas últimas décadas, chegou agora a 3% da renda nacional e deve alcançar 6% nos próximos 3 anos;  fundos de investimentos com pesados prejuízos em seus livros estão se tornando objetos de cobiça por investidores competentes que conseguem ver nos prejuízos acumulados um grande ativo, já que podem compensar imposto de renda a pagar por muitos e muitos exercícios futuros. A opinião pública já está sendo despertada para os vergonhosos esquemas de remuneração de altos executivos.  Acabo de conhecer mais um subproduto do Ouro (não o do Reno, é claro!): os “golden coffins” (caixões de ouro).  Se o executivo falece antes da aposentadoria, 100% de seus ganhos do ano anterior são pagos à sua família no primeiro ano, 75% no segundo e 50% no terceiro. Já existiam os “golden parachutes” (paraquedas de ouro), pagos aos executivos demitidos, às vezes por incompetência ... Só o Nardelli levou US$ 210 milhões da Home Depôt!

Novo ciclo livre do risco de um novo crespúsculo

Não esquecer, por fim, que os Estados Unidos poderão voltar a exercer sua capacidade de liderar a economia mundial, mas agora na direção certa. Basta que o novo Presidente siga a cartilha que parece estar adotando, tão simples quanto segura: “O que o Bush faria neste caso?  OK.  Vamos fazer exatamente o contrário.”
Quem sabe se em 2010 ou 2011 poderemos começar um novo ciclo, com menos ouro, menos “gênios das finanças”, mas livres do risco de um novo crepúsculo ?

  
Fonte: Publicado na revista RI – Relações com Investidores de abril/09

*Lélio Lauretti  - Membro da Câmara de Árbitros e do Conselho de Supervisão do Mercado da BMFBovespa.

28/4/2009


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