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  Sonia Consiglio Favaretto*

Site -  Há relação entre ética, responsabilidade social e sustentabilidade ?

Sonia Consiglio Favaretto - Sim. Vamos considerar antes o conceito. Pode-se dizer que responsabilidade social e sustentabilidade são complementares. Penso no tripé social, econômico-financeiro e ambiental, que permite às empresas exercerem uma prática que visa a sustentabilidade.  Nada mais que o conhecido triple bottom line. O conceito evoluiu muito nos últimos anos, desde a época do terceiro setor, da filantropia. Há uns cinco anos a responsabilidade social era vista como atuação da empresa na comunidade carente. Hoje as empresas estruturaram o investimento social, algumas criaram fundações, para atender a temas ou localidades específicas. Enquanto isso, a responsabilidade social passou a abranger também as relações que a empresa estabelece no dia-a-dia dos negócios.

O Ethos e o Gife abordam dois modos de atuação. O Gife discute agendas de investimento na comunidade. O Ethos tem a preocupação com os resultados e impactos das ações das empresas no meio natural e social afetados pelas suas  atividades empresariais.
 
Se a sustentabilidade se vincula aos aspectos social, econômico e ambiental, a responsabilidade social traduz esses aspectos para os públicos com quem a empresa se relaciona. No caso de uma instituição financeira, por exemplo, abrange a forma como conduz sua plataforma de negócios, como concede créditos para empresas que produzem energia renovável, e/ ou, por exemplo,  restringem a emissão de gases do efeito estufa.

Finalmente, a ética permeia todas as ações de sustentabilidade e responsabilidade social, é um de seus princípios, é premissa. Não dá para ser sustentável e socialmente responsável sem ser ético. A ética é transversal a todas as ações.

Site - O que é uma organização sustentável?

Sonia Consiglio Favaretto - É a organização que se preocupa com seu resultado financeiro. Não com um lucro a qualquer custo e sim, com um lucro responsável. Uma instituição financeira deve estimular que os negócios financiados por ela adotem boas práticas de gestão ambiental, por exemplo reduzindo o impacto de suas operações no meio ambiente.  Essa instituição pode olhar a repercussão de suas ações. Estamos todos inseridos em um processo. Apesar de as mudanças serem rápidas e demandarem soluções imediatas, é preciso trabalhar no presente olhando para um futuro que não se encerra agora. É preciso ter uma visão de longo prazo, estabelecendo uma estratégia para além do resultado anual. As empresas não se tornam sustentáveis de um dia para o outro.

Site -  É possível medir o grau de sustentabilidade de uma instituição? Quais os indicadores mais adequados para auxiliar as empresas brasileiras a construírem sua sustentabilidade? Elas devem elaborar seus próprios indicadores?

Sonia Consiglio Favaretto - Há indicadores como o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa, no Brasil; o Dow Jones Sustainability Index, de Nova York; e o de Londres, entre outros. Para que a empresa passe a integrar esses índices necessita preencher requisitos muito exigentes e submeter-se a criteriosos processos de avaliação. Esses critérios acabam sendo indicadores para as empresas. A cada dia surgem novos sistemas de mensuração que servem, inclusive, de benchmarking entre as empresas.

Site -  Em que medida os stakeholders sofrem o impacto das estratégias das organizações que procuram se conduzir na busca de um desenvolvimento sustentável?

Sonia Consiglio Favaretto - Não me parece que sofram impacto de uma organização apenas. Na verdade, os stakeholders são partes inerentes ao processo global. O mundo procura o desenvolvimento sustentável. Isso se reflete na concepção do cidadão. O cidadão passa a se sentir constrangido se ele não participar desse processo. Se, por exemplo, não implantar a coleta seletiva de lixo em seu apartamento e no seu prédio, ou se não fizer reciclagem.

As empresas começam a orientar seus fornecedores sobre práticas de sustentabilidade, e a selecioná-los em função dessas práticas. Há um movimento crescente elevando o nível das práticas na sociedade como um todo.

O Itaú adota os Princípios do Equador, que consiste em um conjunto de diretrizes socioambientais a serem consideradas no financiamento de projetos. Cada instituição e organização procura suas próprias práticas, o que induz seus concorrentes a se preocuparem com o tema também.

Site -  Os conceitos de responsabilidade social e sustentabilidade são para as empresas modismo, marketing, ou vão se incorporar às instituições por força de uma necessidade que emerge de suas convicções?

Sonia Consiglio Favaretto - A porta de entrada tanto faz. O importante é que essas ações não sejam inconsistentes, ao contrário é imprescindível que sejam consistentes. Sustentabilidade e responsabilidade social acabam entrando na empresa pelo amor ou pela dor.  Se não entram em virtude da convicção de seus administradores, entram pela pressão do mercado. Trata-se de um caminho sem volta.

Site - Como conseguir a coerência entre o que as organizações pretendem fazer e o que realmente fazem?

Sonia Consiglio Favaretto - Pode haver um descompasso natural, que é bastante diferente da falta de ética. Esta última não é admissível nunca. Entretanto, pode ocorrer, por exemplo, que a empresa valorize determinada prática mas perceba que ainda não conseguiu atingir o nível necessário para executá-la. A coerência, sem dúvida, é fundamental para que não se transmita a idéia de que se trata apenas de modismo, já que é muito importante que haja um compromisso sério por parte das empresas.

Site -  As práticas éticas, de responsabilidade social e sustentabilidade adotadas pelas empresas são um empecilho para sua lucratividade?

Sonia Consiglio Favaretto - Não vejo nenhum dilema entre esses aspectos. É possível oferecer à sociedade um produto responsável sob o ponto de vista socioambiental e ser, ao mesmo tempo, lucrativo. Embora haja grande descrença no mercado, depende do investidor acreditar que não há incompatibilidade entre esses aspectos. Se voltarmos ao conceito de sustentabilidade temos que dar o mesmo peso aos três elementos do tripé, o social, o econômico – financeiro e  o ambiental.

Site -  Que dificuldades encontram os gestores e diretores das áreas de responsabilidade social e sustentabilidade das empresas, ao apresentarem aos investidores (acionistas e cotistas) seus projetos e propostas?

Sonia Consiglio Favaretto - Esse é o grande debate. Eles querem saber dos resultados de imediato. O incrível é que ainda há quem pensa que sustentabilidade é fazer caridade. O primeiro desafio é fazer com que as pessoas entendam do que se está falando. Nesse sentido, o Banco Itaú, por exemplo, promoveu a vinda do Al Gore ao Brasil, buscando ampliar a conscientização da sociedade como um todo. Os projetos e propostas existem para mostrar retorno e ao mesmo tempo, foco no negócio. Repito, é preciso não perder o foco no retorno e no aspecto negocial. Há que contar com isso e tentar responder à seguinte indagação: como atrair, criar o consumo consciente se tenho um produto reciclado, porém mais caro que outro que não é reciclado? Penso que com o tempo e maior conscientização, as pessoas passarão a fazer suas escolhas de modo diferente.

Site -  Os relatórios de sustentabilidade elaborados pelas empresas retratam o que realmente ocorre na prática de seu dia-a-dia?

Sonia Consiglio Favaretto - Os relatórios tornaram-se uma peça muito importante, especialmente após a adoção do modelo GRI. O Global Reporting Initiative (GRI) é uma rede internacional que elaborou o modelo para relatórios de sustentabilidade mais usado no mundo atualmente. Trata-se de um modelo objetivo que pede números e metas concretas.
No Fórum de Amsterdam, ocorrido neste ano de 2008, foi feita uma pesquisa entre os leitores dos relatórios de sustentabilidade e a maioria deles mencionou que desejava saber sobre os desafios das empresas, suas dificuldades para superar as falhas e erros. Com efeito, a transparência está sendo cobrada. O relatório não pode ser apenas uma peça de imagem com fotos bonitas, porque cairia no descrédito. O relatório tem que ter um efeito exemplar para os que de fato desejam assumir um compromisso com a sustentabilidade.

 

Sonia Consiglio Favaretto - Jornalista, radialista e pós-graduada em Comunicação Empresarial pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), tem 22 anos de experiência em Comunicação, com atuação em segmentos variados como emissoras de rádio, revistas femininas, agências de comunicação e empresas nacionais e multinacionais, nas áreas de comunicação corporativa, marketing, recursos humanos e responsabilidade social. É Superintendente de Sustentabilidade e Comunicação Interna e Institucional do Banco Itaú e Diretora Setorial de Responsabilidade Social e Sustentabilidade da Febraban – Federação Brasileira de Bancos.


15/9/2008


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