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      ENTREVISTAS


 Ozires Silva *

Site -  Foi o patriotismo que o moveu a criar a EMBRAER? Quais as suas expectativas iniciais? Como o sonho se tornou realidade?

Ozires Silva - A criação da EMBRAER veio muito depois das primeiras idéias, as quais ocorreram na minha terra natal, Bauru – no interior do Estado de S. Paulo. Nos meus 16 anos, comecei a freqüentar o Aeroclube da cidade, influenciado por um grande amigo que, infelizmente, morreu com 25 anos num acidente aeronáutico, em 1955. Notamos, ambos, que embora o Brasil, um país na América e com a mesma idade dos Estados Unidos, não fabricava aviões. E todos aqueles que operavam no Aeroclube eram fabricados na América do Norte. Era para nós, difícil compreender o que tinha nos acontecido. O país do Norte tinha avançado, crescido e, nós – perguntávamos a nós mesmos – tínhamos simplesmente ficado para trás? No curso da vida, por razões financeiras, prestei concurso e entrei para a Escola de Aeronáutica (a origem da atual Academia da Força Aérea de Pirassunga). Formei-me Oficial Aviador e Piloto Militar. Em 1958, consegui uma bolsa integral da FAB para estudar no ITA, aonde me graduei como Engenheiro Aeronáutico.
A partir daí comecei a trabalhar pelo desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira, chegando à EMBRAER de hoje.
Conto tudo isto, com detalhes, no meu livro A DECOLAGEM DE UM SONHO, publicado em 1998 pela Lemos Editorial. Infelizmente, a Editora encerrou suas atividades em 2002 e o livro está esgotado. Creio que publicarei uma nova edição ainda no curso de 2008, comemorando os 10 anos do seu lançamento.
Também escrevi um pequeno livro CARTAS A UM JOVEM EMPREENDEDOR, aonde essa história aparece resumidamente. Esse livro está hoje nas livrarias e disponível.
Como vê, possivelmente se possa dizer que a história é um misto de vontade de fazer e de patriotismo. É claro sem um pouco dos dois nada teria acontecido.


Site - Inovação e empreendedorismo: dois atributos que emanam de um homem como o senhor, que do alto dos seus sessenta anos, cria uma empresa de biotecnologia, que pode competir com a Embraer, que é uma empresa de referência mundial. Conte-nos, por favor, o que é e como surgiu a Pele Nova.

Ozires Silva - Do mesmo modo que a EMBRAER a PELE NOVA surgiu a partir de tecnologia própria, com a possibilidade de criar marcas nacionais.Sempre insisti que os licenciadores internacionais jamais permitem a um fabricante local que concorra no mercado externo contra eles mesmos. Assim, se desejarmos ir ao mercado mundial a tecnologia própria é essencial.
No caso da PELE NOVA fui procurado, no início de 2003, por dois pesquisadores universitários que me contaram terem descoberto princípios ativos no látex da seringueira capazes de estimular a vascularização sanguínea em organismos animais. Em medicina, chama-se a esse fenômeno angiogênese. Explicaram-me que isso permitiria, usando fluxos intensos de sangue, criar mais anticorpos capazes de combater agressões externas ao organismo, facilitando a cura de feridas de difícil cicatrização (ferimentos graves, pés diabéticos, úlceras de pressão, etc.). Mais tarde, continuando-se as pesquisas se constatou que, sob certas circunstâncias, era possível criar a possibilidade de regeneração celular ou tecidual. Isto é realmente algo importante para a medicina. São poucos os medicamentos no mundo que têm a mesma característica e, a totalidade deles usam técnicas sintéticas, muito caras, tornando o produto final fora do alcance da maioria das pessoas. No caso da PELE NOVA é exatamente o oposto. Trata-se de um produto natural cujo custo de fabricação é substancialmente menor do que as alternativas hoje no mercado.
Com estes conceitos básicos decidimos empreender e, agora após 5 anos de trabalho, conseguimos isolar a proteína (que na realidade é o próprio princípio ativo), estamos construindo uma fábrica em Ribeirão Preto, com um primeiro produto, já no mercado, o BIOCURE, mostrando que o novo medicamento é realmente eficaz.
No momento, estamos ampliando nossos trabalhos para a área de cosméticos e para produtos anti-idade, com imensas e amplas alternativas de aplicação.
Acreditamos que, por esse caminho inicial e certamente ampliado, estaremos chegando em breve a ser um dos grandes laboratórios farmacêuticos do mundo.


Site -  Como se pode contribuir para o crescimento da dignidade humana, no mundo empresarial, em que se busca o lucro e a vantagem, a qualquer custo, sem qualquer referencial ético?

Ozires Silva - Creio que posso dizer que a dignidade e o referencial ético não é propriedade de nenhuma classe social ou tipo de pessoas. Conheço uma quantidade de empreendedores que, embora tendo ganhado dinheiro – fruto do seu trabalho, são absolutamente sérios e comprometidos com a sociedade e com a nação. Os contatos que ocorreram nos meus horizontes de empresários que buscam “lucros e vantagens a qualquer custo” foram poucos e muito raros..
Sinceramente, detestaria generalizar e dizer que o mundo empresarial seja como está na pergunta.
O que ocorre é que o Brasil é um país caro, com impostos – os mais altos do mundo, com uma taxa de juros impossível de trabalhar com ela, uma burocracia hostil e complicada (portanto custosa), o que obriga ao empresário trabalhar sob condições demasiadamente desfavoráveis. Nesse momento, desejando salvar suas empresas e os empregos que proporcionam, pode acontecer (não é regra) que ele deixe de pagar impostos e, a partir daí, passar a ser tratado como bandido, o que realmente não é!
Assim, acredito fortemente, que se a sociedade e o Governo sejam realmente sérios, cada qual cobrando do sistema produtivo uma remuneração justa (como ocorre nos países de maior sucesso) esse entendimento sobre o empreendedor brasileiro, certamente se modificará. Seriedade, honestidade, espírito ético e solidariedade devem afetar não somente o empresário, mas também todos os outros segmentos da sociedade.

Site - É possível incutir nos jovens valores como competência e eficiência, determinação e nobreza de caráter? Como disseminar valores em uma sociedade totalmente carente deles?

Ozires Silva - Nossa sociedade não está carente desses fatores. O que acontece é que eles estão mascarados por um sistema legal, regulamentar e normativo que não estimula as pessoas a serem corretas. Já notou que nós os cidadãos brasileiros não temos fé pública. Somente o Governo é que se jacta de tê-la. Do nosso lado, tudo deve ser comprovado. Do lado das autoridades isso não acontece. Fazem do cidadão o que desejam. Nossa democracia, duramente conquistada, ainda está longe do homem comum que não é respeitado.

Site -  Qual o grande desafio dos empresários que desejam contribuir para o processo de construção do futuro?

Ozires Silva - Precisamos ter bases regulamentares estáveis e de longo prazo para que se possa planejar o futuro. Nunca, pelo que me lembre, nenhum Governo projetou bases sólidas para o funcionamento da sociedade. Nossas leis são editadas em magotes e duram pouco. Tudo muda no dia-a-dia. A pergunta é essa: Como construir um futuro sólido com base num sistema que não é estável? A Física nos ensina que as leis da natureza estão aí e as conhecemos. O dia, a noite, as estações do ano, tudo acontece com religiosa regularidade. No Brasil, leis de 100 anos como se encontra na Europa, América do Norte e mesmo na Ásia, simplesmente não existem.
Muitas Associações de Classe estão pensando em criar mecanismos para se tentar influenciar os governantes a serem mais respeitosos. Vamos esperar que consigam.

Site -  A competitividade é um problema ou uma oportunidade para os jovens que desejam se lançar no campo profissional?

Ozires Silva - Sem dúvida que é um problema, mas não deveria sê-lo. Vivemos num mundo de oportunidades que são construídas todos os dias. Por isso que tenho insistido que precisamos de regras estáveis pois, sem elas, fica difícil a qualquer um, jovem ou não, aproveitar tudo o que o mundo globalizado está oferecendo como opções para construir negócios vitoriosos. E, importante, o Brasil precisa disso. A competição mundial hoje é global, ampla e competente, estimulada por legislações de muito melhor qualidade do que as nossas.

Site -  Como devemos nos preparar para as mudanças trazidas pela globalização da economia e pelas comunicações instantâneas?

Ozires Silva - Precisamos de novas culturas. Meditar sobre o que está acontecendo nos novos países emergentes. Vejamos a China, a Índia, a Coréia, a Irlanda, Tailândia e muitos outros países. Todos eles, com coragem e iniciativa, alteraram seus quadros legais e partiram para o futuro com êxito. Segundo o Banco Mundial, em relatório de 2007, o Egito foi o país do mundo que mais se destacou com reformas profundas buscando criar um quadro de desenvolvimento. Será que o Egito será a bola da vez como país para entrar no quadro da competição mundial vantajosa?
No nosso continente, o Chile está caminhando nessa direção. Numa escala menor a Colômbia. Será que não entraremos nesse time?
O Brasil é um país fascinante, rico pela sua natureza, tem uma população dócil e de boa índole. Temos dimensão geográfica, podemos ter um imenso mercado doméstico. Enfim, em resumo, temos tudo para ser melhores do que somos. O que nos impede?  Creio que esse quadro cultural que nos trouxe até aqui, nos nossos primeiros 500 anos de existência, aparece como deficiente e precisaria ser mudado. Se conseguirmos isso, no novo mundo global, será rápido e eficaz.
Na EMBRAER, de algum modo, conseguimos incutir essas idéias e, assim, o progresso e o desenvolvimento que ela atingiu, não ocorreu por acaso. Tem origem e muito trabalho em sua base.

 

Ozires SilvaOficial Aviador e Piloto Militar da Força Aérea Brasileira (1951). Serviu no Correio Aéreo Nacional, graduou-se em Engenharia Aeronáutica pelo ITA (1962).Fez Pós-graduação em Gasdinâmica no Instituto de Tecnologia da California (CALTECH) EUA (1966).Liderou a equipe que criou a EMBRAER - Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A., que presidiu por 21 anos. Publicou livros e recebeu medalhas e homenagens no Brasil e no Exterior.
13/3/2008


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